
Após
as denúncias de acúmulo ilegal de cargos públicos, o presidente da
Câmara Municipal de Sousa, vereador Eduardo Medeiros (PTB), poderá
responder por ato de improbidade administrativa. O parlamentar é médico e
está sendo investigado pelo Ministério Público Federal (MPF) por
acumular cinco empregos na área de saúde, atuando no Programa Saúde da
Família (PSF) e em hospitais municipais e estaduais, no Sertão do
Estado.
Somente na Câmara Municipal, Medeiros recebe cerca de R$ 7 mil por mês
como presidente do Legislativo Municipal. O vereador agora terá de abrir
mão dos empregos em excesso, caso contrário, poderá responder por
improbidade administrativa, de acordo com o que explica o procurador da
República em Sousa, Flávio Pereira da Costa Matias, responsável pelas
investigações.
“É necessário investigar para verificar se há ou houve improbidade. A
acumulação ilegal de cargos, por si só, não implica em improbidade
administrativa. Haverá improbidade administrativa se, uma vez tomando
ciência da impossibilidade de acumular cargos o profissional, recusar-se
a se desligar daqueles que excederem o número de dois, ou se ficar
demonstrado que ele dolosamente recebia dinheiro num local, mas não ia
trabalhar”, explica Flávio Pereira.
A Lei da Ficha Limpa prevê a perda do mandato e a suspensão dos direitos
políticos em casos de condenação por improbidade administrativa.
Todavia, no caso do presidente da Câmara de Sousa, as investigações
ainda estão só no começo. “Ele ainda não foi notificado para prestar
esclarecimentos ao MPF, razão pela qual não é possível formar um juízo
de valor sobre esse caso”, argumentou o procurador.
INVESTIGAÇÕES
Segundo as investigações, o médico chegou a acumular, em maio deste ano,
até sete empregos simultâneos na área de saúde. O excesso de empregos
resultava numa carga horária de até 126 horas semanais, sem contar com a
atuação de Eduardo Medeiros enquanto presidente do Poder Legislativo
Municipal.
MPF VÊ INDÍCIO DE ILEGALIDADE
Para o procurador da República em Sousa, Flávio Pereira da Costa Matias,
a carga horária excessiva evidencia que o serviço pago com dinheiro
público não está sendo prestado efetivamente à população.
“É impossível que uma pessoa exerça sua profissão no horário
regulamentado em cinco ou seis lugares ao mesmo tempo. A Constituição
permite a acumulação de até dois cargos para os profissionais da área de
saúde, porém identificamos que aqui em Sousa havia um excesso em
relação a alguns médicos”, informou o procurador que também está
investigando a conduta de outros médicos, além do vereador.
TCE
O conselheiro André Carlo, do Tribunal de Contas do Estado (TCE), disse
que os médicos podem ter, no máximo, dois empregos públicos, desde que
não haja conflito de horário.
No caso de presidentes de casas legislativas, a exemplo do médico
Eduardo Medeiros, a orientação é pela dedicação exclusiva ao cargo. “O
TCE tem deflagrado procedimento de investigação e determinado aos
gestores e beneficiários dessas acumulações ilegais que optem para que
desempenhem somente o cargo, conforme a Constituição estabelece, salvo
nas hipóteses que ela própria permite”, declarou.
MEDEIROS REVELA QUE FEZ ACORDO
O médico e vereador Eduardo Medeiros confirmou o acúmulo de função, mas
tentou justificar afirmando que tudo era feito mediante acordos firmados
com os diretores dos hospitais ou unidades de atendimento onde ele
possui vínculo empregatício. “Todos os médicos que estão lá trabalham
desse jeito. Até agora, eu tenho cumprido com o que foi acordado lá, com
os acordos”, justificou.
O parlamentar também admitiu que os acordos não são firmados legalmente,
mas apenas acertados informalmente para evitar o choque de horários.
Ele justificou o acúmulo, afirmando que não considera suficiente o valor
pago como remuneração. “O que está no papel do contrato original é
outra coisa, se eu fosse seguir rigorosamente o que está na lei, eu ia
viver de quê?”, tenta justificar. Só na soma de dois empregos, ele
recebe mais de R$ 14 mil.
A irregularidade foi confirmada também pela diretora do Hospital
Regional de Sousa, Cláudia Gadelha, que atribui o problema à escassez de
médicos. “As 12 horas noturnas ele está de plantão e durante o dia ele
nos ajuda nas cirurgias. Correto não está, mas foi a necessidade que
falou mais alto”, explicou a diretora. De acordo com a legislação, os
gestores que contratam médicos em acúmulo de função também poderão
responder por improbidade administrativa, caso fique comprovado a
anuência com as irregularidades na contratação de servidores públicos.
ASSESSOR FANTASMA É ALVO DE INVESTIGAÇÃO
Outro caso polêmico envolvendo a Câmara de Sousa também está sendo
investigado, dessa vez pelo Ministério Público Estadual (MPPB). A
denúncia aponta para a existência de assessores fantasmas atuando no
gabinete do vereador Júnior de Nedimar (PSD).
O procedimento investigatório foi aberto há cerca de dois meses pelo
promotor Leonardo Quintans, mas os detalhes da investigação estão sob
sigilo judicial.
Segundo a denúncia, um dos assessores que constam como nomeados para o
gabinete nunca trabalhou na Câmara e o valor que teria de ser pago ao
funcionário era destinado ao parlamentar responsável pela nomeação. O
parlamentar não foi localizado para comentar o caso.
O Ministério Público quer saber ainda se a irregularidade teve a
participação ou anuência da mesa diretora da casa. “É um caso que abre
questionamentos sobre a própria Câmara, mas que vai depender dos
dedobramentos que por enquanto não podem vir à tona devido ao sigilo
decretado pela Justiça”, explicou o promotor.
Jornal da Paraíba
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